Poesia concreta: Casa premiada traz sustentabilidade, unindo razão e emoção

 

Projeto vencedor de prêmio nacional de sustentabilidade, une a razão e  a emoção: são 1421 m² implantados em um terreno com 15 mil m² sem impactos na topografia – ou na vegetação. 

Por Joyce Diehl

 

“Gostaria que a casa tivesse música, sentimento, madeira, fogo, ar, água, luz, caminho, busca. E também que fosse um ícone que representasse algo inovador.” Assim nasceu esse projeto, de uma entrevista diferente e muito peculiar, mais parecendo filosofia  que arquitetura.

Elaborado desde sua concepção por um grupo de profissionais de áreas distintas, o projeto da chamada Casa 01 foi desenvolvido com premissas de sustentabilidade, tentando provar o improvável, para as mentes mais tradicionais: que pode – se construir de maneira racional, minimizando impactos ambientais, transformando um objeto de morar em um objeto de exemplo de mudança de hábitos na construção e no uso da residência. E ainda assim ter música, sentimento, madeira, fogo, ar, água, luz, caminho, busca. Razão e emoção, enfim, juntas.

Localizada no Condomínio Lagoa Dourada, em Criciúma (SC), a Casa 01 foi a vencedora do destacado Prêmio Saint-Gobain de Arquitetura – Habitat Sustentável nas categorias Destaque Sustentabilidade e Profissional Modalidade Residencial. Este prêmio é nacional, está na 4ª edição e visa premiar projetos que apresentem melhores soluções para o uso racional de recursos naturais. De propriedade do filósofo clínico Beto Colombo e Albany Colombo, tem como responsável o arquiteto Diego Espírito Santo, tendo como participantes a arquiteta Amanda Pamato de Souza (projeto Luminotécnico), o arquiteto paisagista Benedito Abbud, o engenheiro Mauro César Sônego e a arquiteta Vânia Marroni Búrigo ( arquitetura de interiores).

 

A intenção inicial era criar uma promenade architecturale, conceito desenvolvido por Charles-Edouard Jeanneret-Gris (1887 / 1965) ,  arquiteto, urbanista , escultor e pintor suíço, naturalizado francês, mais conhecido como Le Corbusier, que diz, de forma bem simplificada, que a arquitetura deve ser dinâmica, com dinâmicos são os espaços – e a própria vida. Visando a contemplação de pátios internos, amplos cômodos, segregação entre áreas privativas e sociais, além de promover um contato visual com o paisagismo exterior, o estudo da Casa 01  levou em conta a integração entre o entorno e o interior da residência, resguardando a privacidade dos seus moradores através de estratégias arquitetônicas. Durante a etapa da concepção do projeto, vários fatores interferiram nas decisões, como as condicionantes do entorno –de  onde não foi retirada nenhuma árvore -, o programa de necessidades e aspectos técnicos de compatibilidade com outros projetistas. Trabalho de equipe.

 

 

As esquadrias e aberturas horizontais foram responsáveis por muitos aspectos bioclimáticos, contemplando grandes áreas de iluminação e ventilação, além de serem os principais elementos integradores da arquitetura com a natureza.

O programa de necessidades no térreo inclui garagem, suíte de serviço, biblioteca, jardim, sala de cinema, “fogo de chão”, piscina, sala de estar, sala de degustação, academia, banheiros, área de serviço, suítes –  sendo a suíte principal com closet e atelier de costura. Todos envoltos pelo maravilhoso entorno. No subsolo, a concentração da dita parte técnica da casa:   depósito, estúdio, central de controle energético e a cisternas, juntamente com o tratamento de esgoto e bombas.

 

Premissas sustentáveis

Desde o início foram buscados soluções e materiais Ecoefetivos, que fossem realmente sustentáveis e saudáveis, tanto para as pessoas, quanto para o meio ambiente. Para alcançar os objetivos, foram aplicadas soluções inteligentes para tratamento de água, reutilizando e tratando 100% do esgoto gerado pela residência no próprio terreno. Outro destaque deste projeto foi na inovação com o uso de dióxido de titânio no concreto, que tem a propriedade de limpar o ar, eliminando o CO2 de 12 carros por dia,  este produzido pela simples incidência dos raios ultravioletas em contato com as paredes de concreto da casa. O  dióxido faz com que  as paredes liberem radicais livres que decompõem agentes poluentes, atuando como um purificador natural do ar.

Além disso, a Casa 01 também tem vários outros aspectos que foram pensados, desde sua concepção, para reduzir impactos ambientais:  plano de gerenciamento de resíduos, Sistema Integrado Ecoesgoto, que reaproveita a água para irrigação do terreno, uso de placas fotovoltaicas e a não necessidade de climatizadores para resfriamento ou aquecimento da residência por ter sido dada atenção especial na ventilação cruzada, iluminação natural, orientação solar e uso do Ecotelhado – Sistema Laminar Médio.

 

Coerência  dentro e  fora

No projeto de arquitetura de interiores, sob a batuta de Vânia Búrigo, foram usados materiais com tecnologia direcionada para a sustentabilidade. Entre eles, rodapés de material reciclado, mobiliários fixos feitos com madeira de reflorestamento,  a reutilização de móveis existentes e  o uso de tecidos naturais,   como linho e algodão. O piso interno foi feito com madeira tratada e o bambu foi eleito como a madeira principal, sendo usado nas portas internas.  Até a acessibilidade da casa, que foi pensada com acesso universal, faz parte deste complexo conceito de sustentabilidade, aqui usada em seu sentido mais amplo, da boa conduta – desde a escolha da matéria prima até a colocação e uso, além do respeito total à natureza existente. Suprir as necessidades humanas, sim, mas sem comprometer o futuro das próximas gerações, talvez esse o maior legado.

O paisagismo é uma paixão à parte. Benedito Abbud  trabalha de forma a não interferir na  paisagem nativa existente, aproveitando da topografia, da vegetação e até das pedras existentes no terreno, criando pontos de atenção que beiram à arte, marca registrada do paisagista.

Ficha técnica:    Casa 01, Alameda Orquídeas, Condomínio Lagoa Dourada, 1ª linha,  Criciúma, SC.

Conclusão da obra: 2017.  Área total construída (m2): 1421,49

Fotografia: Mariana Boro

 

Sobre Diego Espírito Santo:

Diego Espírito Santo formou-se pela Universidade Federal de Pelotas no Rio Grande do Sul em 2002. É especializado em ecoconstrução e arquitetura hospitalar, com diversas obras no Brasil e exterior.

www.esarquitetura.com

 

Sobre Vânia Búrigo:

Vânia Marroni Búrigo é arquiteta diplomada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pelotas (RS) em 1977. A partir de 1986, instalou-se em Criciúma (SC) com escritório de projetos arquitetônicos para área residencial, comercial, empresarial e hotelaria.

 

Sobre Benedito Abbud:

Benedito Abbud é formado em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), onde  cursou pós-graduação e mestrado. Foi presidente da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP) entre 1987-1988 e 1999-2000. É autor do livro Criando paisagens: guia de trabalho em arquitetura paisagística, publicado em 2006 pela editora Senac São Paulo. www.beneditoabbud.com.br

 

Sobre o Prêmio:

O Prêmio Saint-Gobain de Arquitetura ‒ Habitat Sustentável é uma iniciativa do Grupo Saint-Gobain e tem a finalidade de reconhecer e premiar projetos de arquitetura que se destacaram em soluções para o conforto do ambiente, além de mobilizar profissionais e estudantes que acreditam que a construção civil exerce significativa contribuição para a sustentabilidade do setor e bem-estar dos usuários. O prêmio ainda incentiva o uso de tecnologias e soluções inovadoras, e a correta especificação de produtos e processos construtivos.

 

 



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