Marcenaria, design e arte: Fernando Mendes, um discípulo com ideias próprias

Fernando Mendes, discípulo de Sérgio Rodrigues

Por Maria Alice Miller (*)

 

Fonte: www.desfrutecultural.com.br

 

Biografado por ninguém menos que Baba Vaccaro  –  reconhecida designer e diretora de criação da loja Dpot, especializada em design brasileiro – , Regina Zappa ,jornalista, escritora e roteirista ; Zuenir Ventura, escritor, jornalista e ex-professor da ESDI – Escola Superior de Desenho Industrial – o famoso ‘Mestre Zu’, do antigo Jornal do Brasil aqui do Rio, e ainda por Afonso Luz (crítico de arte e filósofo), Fernando Mendes  não é um designer que se possa falar com pressa e sem escolher bem as palavras, as frases e as construções. E por mais que esta escriba goste de seu ofício e capriche em suas análises sempre, pesa ainda mais o fato de que o designer a ser resenhado não só já muito bem escrutinado por nobres talentos da língua portuguesa, mas também é um discípulo de primeira linha de um dos mestres do design nacional: Fernando Mendes é ‘herdeiro direto’ simplesmente de Sérgio Rodrigues.

Poltrona “Ventura” – estrutura em freijó natural ou tonalizado e couro natural – uma das mais bonitas da coleção de Fernando Mendes, em nossa opinião.

Tarefa difícil esta a que me dedico agora, mas enfrento-a com carinho e afinco pois tanto Fernando quanto seu trabalho merecem ser mais conhecidos e valorizados. Conta a história que começou a lida com marcenaria por hobby, de forma autodidata, com o que tinha em casa: algumas máquinas e ferramentas herdadas de um tio num quartinho de seu apartamento. Fez uma bancada para a serra e lia muito sobre o assunto. Já com algum traquejo, começou a fabricar peças para o ateliê oficina de Sergio Rodrigues. A primeira peça foi uma banqueta chamada “Moleca”, uma versão desmontável da poltrona “Mole”: imaginem, logo a obra prima de Sérgio… Sobre esta fase, Fernando comenta: “Quando comecei a fabricar artesanalmente o mobiliário do Sergio percebi que suas criações são bem mais do que uma poltrona, uma mesa, uma cadeira. São seres impregnados de emoção e vitalidade. Pode-se dizer em alguns casos que uma cadeira é fêmea ou que é macho, outra parece que anda se virarmos de costas, e assim vai… Sergio cria com a alegria de uma criança, suas peças são brinquedos para gente grande“.

Poltrona “Santos Dumont” – estrutura em freijó natural ou tonalizado com palhinha natural – a preferida do designer, que homenageia o chamado “pai da aviação” e primeiro designer brasileiro.

Daí para trabalhar no ateliê de Sergio foi um caminho natural. Fernando também buscou aprendizado e para tanto cursou duas faculdades – desenho industrial e arquitetura – mas afirma que aprendeu mais no tempo em que trabalhou junto a Sergio do que nas academias. Em suas palavras, ele diz que: “lá aprendi a importância do entusiasmo ao se projetar, um sofá, uma casa ou um ambiente, não importa o que“. Foram sete anos trabalhando como arquiteto e designer, mas ao longo de mais de vinte anos de trabalho e convivência com o mestre, hoje o Atelier Fernando Mendes recebeu o licenciamento de cerca de cinquenta peças da coleção Sergio Rodrigues, pois não há maior garantia de perfeita fabricação dessas peças que não sejam pelas mãos de Fernando Mendes. Só isso, já dá uma medida da importância do designer e também de seu talento.

Só que um bom discípulo, de um modo geral, tem ideias próprias: poder executar com maestria uma obra prima dá um grande prazer, mas qual é o prazer de criar algo novo, totalmente pensado, gestado e amado desde o princípio, apenas por você? Para uma pessoa como Fernando Mendes, isso não tem preço. E como um bom aprendiz – e mais que isso – para um criador com talento para trazer ao mundo muitas coisas novas, Fernando pôs em prática o que imaginava.

 

Poltrona “Sapão”– estrutura em freijó natural ou tonalizado e couro natural – lançamento que lembra muito o bom humor característico das peças do Mestre Sérgio Rodrigues.

 

Obviamente que sua exigência com a própria criação não poderia ser em um nível muito baixo. O trato com a madeira, se já era de admiração nos tempos em que a marcenaria era um hobby, agora, como profissional, tornou-se ainda maior. Para ele, madeira não é apenas uma matéria prima, mas uma musa inspiradora, antecipando-se às vezes ao desenho, sobrepujando o que se imaginava a princípio. Ele destaca e expõe suas imperfeições, seus “defeitos”, os nós, os veios, as estrias, sua textura irregular. É a ideia de não ser o “criador absoluto”, e sim incluir o acaso no seu fazer.

Se auto definindo como um designer marceneiro – ou um artífice – confessa que o próprio fazer da marcenaria o inspira. Uma característica marcante em suas peças é a ausência de ângulos retos e quinas, e a enorme dedicação ao acabamento e ao ato de lixar as peças incansavelmente para lhe trazer a textura adequada. Não é por acaso que sua peça preferida seja sua cadeira Santos Dumont, que homenageia o inventor do avião e primeiro designer brasileiro.

Banco “Elp”– estrutura em peroba do campo com borboletas de madeiras diversas e uma borboleta de prata 925 – de formas delicadas, o banco “Elp” não tem medida certa e pode ser feito sob medida. Sua característica principal é contar com uma ‘borboleta’ – peça de encaixe ou ligação, que funciona no lugar de um prego ou parafuso, por exemplo – em prata 925 inserida em algum lugar de seu corpo.

Carrinho “Spo” – estrutura em Valchromat – único brinquedo de Fernando Mendes, é um lançamento feito em Valchromat – painel de fibras de madeira, coloridas individualmente com corantes orgânicos, ligadas entre si por uma resina especial que confere ao material características únicas.

De nosso ponto de vista Fernando é uma “cria” de Sergio Rodrigues, das mais interessantes. Sem demérito ao seu talento e luz própria, em suas peças estão expostas todos os princípios e marcas de seu mestre: principalmente o bom humor. É decisivo, marcante e poético como as peças são robustas, como suas curvas são delgadas e firmes, como todas têm uma ‘natureza prática’, sem grandes ornamentos ou complicações. Uma cadeira, um banco, uma poltrona, são simples, ainda que tenham muitos detalhes. Ainda que sejam muito trabalhadas. Ainda que tenham encaixes, cavilhas, e detalhes que a gente não enxergue de uma só olhada.

Aparador “Beatriz”, com estrutura em freijó natural ou tonalizado com tampo de vidro 15 mm. Outro lançamento que já vem com características mais delicadas que chamam a atenção pela suavização de espessuras e utilização de vidro no tampo.

Mesa “Didi Jantar” – freijó natural ou tonalizado. Também em tom claro – podendo ser mais escuro – design leve, com detalhes sofisticados e refinados.

 

A linguagem de Fernando é mais leve. A sua leveza talvez esteja num humor mais contido, num refinamento mais seu que de Sérgio. O aparador “Beatriz” e a mesa de Jantar “Didi” estão aí para provar isso. Mas, ao mesmo tempo, se você olha para a poltrona “Sapão” você vê que o ‘jeito Sergio Rodrigues’ de desenhar está nas mãos de Fernando: do jeito desengonçado e super bem-humorado de encarar a vida. Enfim, como entender o trabalho do herdeiro de um mestre desta estirpe sem cotejar os dois trabalhos? Sem olhar um e outro e reparar as releituras e aproximações? Sem pensar que mestre e discípulo se influenciaram e se influenciam?

Cadeira “Pedro” com estrutura em freijó. Simples, sem ser simplista, e dentro da tradição de seu mestre, Fernando Mendes mostra uma criação onde a boa marcenaria, a boa madeira são respeitadas e exibidas com primor. Simplesmente.

Poltrona “Arbatax”, em freijó natural e couro soleta | futon ( tecido ou couro). Lançamento dos mais felizes, esta poltrona mostra como Fernando está começando a se identificar com seus contemporâneos. Linhas retas e atuais, com o uso de couro e futon, baixa e descontraída, pronta para um bate papo entre amigos.

 

Mesmo assim, penso que Fernando Mendes está apenas começando. Com muito sucesso em várias boutiques nacionais de design, certamente tem caminho aberto para uma produção riquíssima de bases sólidas que muitos gostariam de ter. Basta querer, pois o pontapé inicial está dado. Aonde isto pode levá-lo só ele mesmo vai poder nos dizer.

 

Maria Alice Miller é editora do blog Casa com Designeditora de conteúdo, crítica e consultora de design. É colunista da Revestir.com desde os anos de 2000.

 

 

 

 

 



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